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Dr. Marcelo Acosta — Neurocirurgia · Cirurgia da Coluna

Tratamento · degrau 3

Infiltração (bloqueio) na coluna

A infiltração leva anestésico e anti-inflamatório, com guia de imagem, ao ponto exato onde a dor nasce: junto a uma raiz nervosa inflamada, dentro de uma articulação facetária ou na articulação sacroilíaca. É um degrau intermediário: mais do que a medicação oral, muito menos do que uma cirurgia. Este guia explica os tipos, para quais problemas ela serve, como é feita, o preparo, os riscos, a recuperação e onde ela entra na escada de tratamento.

Revisão técnica: Dr. Marcelo Acosta (CRM-SP 164159 / RQE 80588). Atualizado em 29 de outubro de 2026.

O que é

Infiltração é um procedimento terapêutico: uma agulha fina, posicionada com imagem, deposita anestésico e corticoide no local da inflamação. O anestésico dá o alívio imediato; o corticoide reduz a inflamação da raiz ou da articulação ao longo dos dias seguintes. Não retira hérnia, não alarga canal nem reverte desgaste: reduz a inflamação e a dor enquanto o organismo faz o seu trabalho e a reabilitação avança.

No Brasil, infiltração e bloqueio são usados como sinônimos. O procedimento leva a medicação às raízes nervosas, às facetas ou à articulação sacroilíaca, conforme a origem da dor, e uma mesma sessão pode tratar mais de um alvo quando necessário. Além de tratar, a resposta ao procedimento ajuda a confirmar de onde vem a dor; antes da rizotomia, por exemplo, faz-se o bloqueio do ramo medial como teste.

Esquema de infiltração facetária guiada por imagem, com a agulha atingindo a articulação facetária entre duas vértebras.
Esquema ilustrativo — não representa o exame de um paciente.

Tipos

O que muda entre os tipos é o alvo e o caminho da agulha:

  • Peridural interlaminar: a agulha entra entre duas lâminas, por trás, e a medicação se espalha no espaço peridural, ao redor do saco dural. Serve para dor radicular de mais de uma raiz e para a claudicação da estenose do canal
  • Peridural transforaminal (radicular): a agulha chega ao forame por onde sai a raiz, e a medicação é depositada junto a ela. É a mais usada na ciática e na cervicobraquialgia por hérnia ou estenose foraminal, porque trata a raiz exata e, pela resposta, ajuda a confirmá-la
  • Facetária intra-articular: a medicação vai para dentro da articulação facetária inflamada, na dor lombar ou cervical que piora em extensão e rotação
  • Sacroilíaca: dentro da articulação entre o sacro e a bacia, na dor da parte baixa da lombar e do glúteo com exame compatível

Para quais problemas

  • Dor radicular (ciática ou cervicobraquialgia) por hérnia de disco lombar ou cervical que persiste apesar do tratamento conservador, sem déficit que progride
  • Estenose foraminal ou do canal com dor irradiada ou claudicação, sobretudo em fases de piora
  • Dor facetária com sinais inflamatórios (artrose facetária), quando o fortalecimento não bastou
  • Dor da articulação sacroilíaca (sacroileíte mecânica ou inflamatória, com o reumatologista quando for o caso)
  • Para permitir a reabilitação quando a dor impede o exercício, ou para atravessar o período em que a hérnia regride

Como é feita

Em regime ambulatorial, com o paciente acordado ou sob sedação leve, deitado de bruços (lombar) ou de costas (cervical). A agulha é guiada por fluoroscopia (radioscopia), tomografia ou, em alguns alvos, ultrassom; uma pequena quantidade de contraste confirma a posição antes da medicação. Injeta-se anestésico local e corticoide. O procedimento dura minutos; a pessoa fica em observação por um curto período e vai para casa no mesmo dia, acompanhada.

O alvo nunca é escolhido pelo laudo sozinho: a história, o exame neurológico e a imagem precisam apontar para a mesma raiz ou articulação. É isso que separa uma infiltração com chance de funcionar de uma injeção "para ver se melhora".

Diagnóstico e planejamento: quando a infiltração faz sentido

Antes de propor a infiltração, a consulta confirma três coisas: que há um alvo anatômico definido (raiz, faceta ou sacroilíaca); que os sintomas batem com esse alvo; e que o tratamento conservador já teve a sua chance ou que a dor está impedindo a reabilitação. O quadro abaixo traduz os achados de laudo em que a infiltração costuma fazer sentido, os em que não faz, e os que pedem outro caminho, com os códigos CID das indicações.

Exames de imagem e CID

Como aparece no laudo

O laudo descreve a imagem; o que define a conduta é a correspondência entre o achado, os sintomas e o exame neurológico. Para cada termo, o que ele significa e o que fazer com ele.

Extrusão discal
Tipo de hérnia em que o material deslocado tem a ponta mais larga do que a base, ou se estende acima ou abaixo do disco. Costuma ter mais contato com a raiz nervosa.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor radicular que persiste apesar do tratamento conservador e atrapalha a reabilitação: é o cenário clássico da infiltração transforaminal, enquanto a hérnia regride
Protrusão discal
Tipo de hérnia em que o material do disco sai de forma localizada, com a base mais larga do que a ponta. Pode ou não tocar uma raiz nervosa.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada no território da raiz que ela toca; sem sintomas, não é alvo de infiltração
Conflito ou contato radicular
O laudo indica que o disco ou um osteófito toca ou desloca uma raiz nervosa. Descreve um contato na imagem; se ele explica os sintomas, quem define é o exame clínico.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sintomas no território da mesma raiz; a infiltração junto a essa raiz trata e, pela resposta, ajuda a confirmar a fonte
Estenose foraminal
Estreitamento do forame, o orifício lateral por onde a raiz nervosa sai da coluna. Pode comprimir a raiz e causar dor irradiada.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada em pé ou ao caminhar no território desse forame: candidata à infiltração transforaminal
Estenose do canal central
Estreitamento do canal por onde passam a medula, no pescoço, ou as raízes nervosas, na região lombar.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: claudicação neurogênica com sintomas que limitam: a peridural interlaminar pode aliviar por um período e é útil em fases de piora, sem alargar o canal
Artrose facetária
Desgaste das pequenas articulações da parte de trás da coluna (facetas), que aumentam de volume e às vezes acumulam líquido.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor localizada que piora em extensão e rotação e não cedeu ao fortalecimento: infiltração facetária ou bloqueio do ramo medial, que também serve de teste antes da rizotomia
Derrame articular ou edema das facetas
Sinais de inflamação ativa da faceta na ressonância. Com dor localizada que piora em extensão, é o achado em que a infiltração facetária intra-articular costuma fazer sentido.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor facetária com sinais inflamatórios
Cisto sinovial facetário
Pequeno cisto que nasce de uma faceta desgastada. Quando cresce para dentro do canal ou do forame, pode comprimir uma raiz nervosa.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada do lado do cisto: a infiltração junto à raiz alivia e ajuda a confirmar; cisto que recorre pode pedir outro tratamento
Edema ósseo ou esclerose da articulação sacroilíaca
Alterações na articulação entre o sacro e a bacia, que podem acompanhar dor na parte baixa da lombar e no glúteo, pior ao levantar da cadeira e ao apoiar o peso de um lado.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor sacroilíaca com exame compatível: a infiltração sacroilíaca guiada por imagem trata e ajuda a confirmar
Abaulamento discal
O disco se estende de forma ampla e difusa além do contorno das vértebras. É comum com o envelhecimento, não é o mesmo que hérnia e, sozinho, raramente explica dor irradiada.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Discopatia ou desidratação discal sem radiculopatia
Desgaste do disco sem compressão de raiz. A dor, quando existe, é central e mecânica; a infiltração peridural não tem alvo nesse caso, e o tratamento é conservador.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Compressão com déficit que progride ou sinais de cauda equina
Perda de força que avança, dormência na região íntima, alteração para urinar ou evacuar. Aqui a infiltração não é o caminho: o que está em jogo é a descompressão, e a avaliação não espera.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sempre, e logo; é urgência (atendimento no mesmo dia) com fraqueza que piora, dormência na região íntima ou alteração para urinar ou evacuar

Códigos CID-10 que costumam acompanhar guias e relatórios

  • M51.1 · Transtorno de disco lombar com radiculopatia
  • M50.1 · Transtorno do disco cervical com radiculopatia
  • M54.3 · Ciática
  • M54.4 · Lumbago com ciática
  • M54.1 · Radiculopatia
  • M48.0 · Estenose da coluna vertebral
  • M47.8 · Outras espondiloses (artrose facetária)
  • M46.1 · Sacroileíte não classificada em outra parte

O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.

Preparo

  • Anticoagulantes e antiagregantes: informar na consulta; a suspensão ou o ajuste é combinado com o médico que os prescreveu, nunca por conta própria
  • Diabetes: o corticoide eleva a glicemia por alguns dias; o controle precisa estar adequado e a medida da glicemia é reforçada depois
  • Infecção ativa (urinária, de pele, dentária, febre): adia o procedimento
  • Alergias a contraste, anestésicos ou corticoide: informar antes
  • Jejum conforme a orientação quando houver sedação; levar os exames de imagem e a lista de medicamentos; vir acompanhado

Contraindicações e riscos

Não se faz infiltração com infecção ativa, com anticoagulação sem ajuste, com alergia aos medicamentos usados, na gestação (pela radiação da fluoroscopia) ou quando há déficit neurológico que progride, porque aí o problema pede descompressão, não medicação. Diabetes descompensado e glaucoma pedem avaliação antes.

É um procedimento seguro quando guiado por imagem e feito por profissional treinado. Efeitos comuns e passageiros: dor no local, piora transitória da dor nos primeiros dias, rubor facial, aumento temporário da glicemia, insônia ou agitação por alguns dias pelo corticoide. Na peridural interlaminar, a agulha pode tocar a membrana do saco dural e causar a cefaleia pós-punção: dor de cabeça que piora ao ficar em pé e melhora deitado, nos dias seguintes; costuma resolver com repouso, hidratação e analgesia, e, se persistir, há tratamento específico. Complicações graves (infecção profunda, sangramento no canal, lesão nervosa, reação alérgica importante) são raras e são discutidas individualmente.

Recuperação

Alta no mesmo dia. Repouso relativo por um curto período, sem dirigir no dia se houve sedação; atividades leves e trabalho de escritório costumam ser retomados no dia seguinte. O anestésico pode dar alívio nas primeiras horas, seguido de retorno parcial da dor; o efeito do corticoide começa ao longo dos dias seguintes. A fisioterapia é retomada ou iniciada assim que a dor permite: a infiltração existe para que ela avance.

Quantas vezes pode repetir

Não há número fixo. A repetição depende da resposta obtida, do intervalo desde a anterior e da dose acumulada de corticoide, que tem limites por razões de segurança. Infiltração que trouxe alívio claro e depois a dor voltou pode ser repetida; infiltração bem feita que não trouxe alívio raramente muda o resultado quando repetida, e aí é hora de reavaliar o diagnóstico ou subir o degrau. Ela não é tratamento de manutenção indefinido.

Onde ela entra na escada de tratamento

A infiltração é o terceiro degrau: vem depois do tratamento conservador, que inclui a reabilitação e, quando há dor de nervo, a medicação para dor neuropática, e antes dos procedimentos cirúrgicos, como a descompressão. Nem todo caso passa por todos os degraus: déficit que progride ou sinais de cauda equina pulam direto para a cirurgia, e muitos casos nunca saem do conservador. Para quem está entre os dois, ela funciona como ponte: em parte dos pacientes, basta para atravessar o período em que a hérnia regride; em outros, dá tempo e informação para decidir a cirurgia com mais clareza. Os degraus estão em Tratamentos da coluna.

Quando procurar avaliação

Dor irradiada para a perna ou para o braço que persiste apesar de algumas semanas de tratamento bem conduzido, dor que impede a fisioterapia, claudicação que limita a caminhada, ou dor facetária ou sacroilíaca que não cede ao fortalecimento: a consulta com um especialista em coluna em São Paulo confirma o alvo e define se a infiltração é o próximo passo. Perda de força que progride, dormência na região íntima ou alteração urinária pedem atendimento no mesmo dia, e não infiltração.

Perguntas frequentes

Quantas infiltrações posso fazer?

Não há um número fixo. O intervalo e a quantidade dependem da resposta obtida e da dose total de corticoide no ano. Se uma infiltração bem feita não trouxe alívio, repetir raramente muda o resultado — é hora de reavaliar a estratégia.

Quem não pode fazer infiltração na coluna?

Algumas situações pedem adiamento ou cuidado: infecção no local ou no organismo, uso de anticoagulantes sem orientação de ajuste, alergia aos medicamentos usados, diabetes descompensado e gestação. Déficit neurológico que progride pede descompressão, não infiltração. Tudo isso é revisado antes do procedimento.

Posso trabalhar depois da infiltração?

Em geral, sim, com atividades leves. A orientação é repouso relativo por um curto período após o procedimento e retomada gradual, conforme a resposta.

Infiltração na coluna dói?

Há desconforto na entrada da agulha e, às vezes, uma pressão ou um choque breve quando a medicação chega perto da raiz. A anestesia local e, quando necessário, a sedação leve tornam o procedimento bem tolerado. Nos primeiros dias, a dor pode piorar de forma passageira antes de melhorar.

Quanto tempo dura o efeito da infiltração?

Varia de pessoa para pessoa. O anestésico age nas primeiras horas; o corticoide começa a agir ao longo dos dias seguintes e, em quem responde, o alívio costuma durar semanas a meses. Em parte dos casos, é o suficiente para a hérnia regredir e a dor não voltar; em outros, a dor retorna e a resposta orienta o passo seguinte.

Infiltração e bloqueio são a mesma coisa?

Sim, no uso brasileiro são sinônimos, e a codificação não distingue um do outro. Os dois nomes designam a injeção de anestésico, em geral com corticoide, guiada por imagem, junto a uma raiz nervosa, dentro de uma faceta ou na articulação sacroilíaca. O que muda é o alvo e o objetivo em cada sessão: tratar a inflamação e, pela resposta, confirmar de onde vem a dor. O bloqueio do ramo medial, feito como teste antes da rizotomia, é um exemplo em que a mesma técnica serve principalmente para confirmar.

Infiltração peridural pode dar dor de cabeça?

Pode, na peridural interlaminar, se a agulha tocar a membrana do saco dural: é a cefaleia pós-punção, que piora em pé e melhora deitado. Costuma resolver em dias com repouso, hidratação e analgesia; se persistir, existe tratamento específico. É incomum na transforaminal e na facetária.

A infiltração cura a hérnia de disco?

Não. Ela reduz a inflamação da raiz e a dor; a regressão da hérnia é um processo do próprio organismo, que acontece ao longo de meses em boa parte dos casos. A infiltração ajuda a atravessar esse período com menos dor e a manter a reabilitação.

Preciso parar o anticoagulante para a infiltração?

Nunca suspenda por conta própria. A decisão depende do remédio, da dose e do tipo de infiltração, e é tomada junto com o médico que o prescreveu, que define se há suspensão, por quanto tempo e como retomar.

Referências

  1. Manchikanti L et al. Epidural interventions in the management of chronic spinal pain: American Society of Interventional Pain Physicians (ASIPP) comprehensive evidence-based guidelines. Pain Physician. 2021;24(S1):S27-S208.
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