Doença da coluna
Estenose lombar e do canal vertebral
Estenose é o estreitamento do canal por onde passam os nervos da coluna, quase sempre resultado do desgaste ao longo dos anos. A forma mais comum é a estenose lombar, cujo sintoma típico é a dificuldade progressiva para caminhar distâncias, que melhora ao sentar ou inclinar o tronco para a frente. Este guia explica os tipos, as causas, como o diagnóstico é feito, o que o laudo e o CID mostram e o tratamento do conservador à cirurgia.
Revisão técnica: Dr. Marcelo Acosta (CRM-SP 164159 / RQE 80588). Atualizado em 28 de outubro de 2026.
O que é
Com o envelhecimento, discos perdem altura, ligamentos se espessam e articulações facetárias aumentam de volume. Juntos, esses processos reduzem o espaço para as raízes nervosas, sobretudo na coluna lombar baixa (L4-L5 e L3-L4 são os níveis mais acometidos). O estreitamento pode ser do canal central, por onde passa o conjunto das raízes; do recesso lateral, o canto por onde cada raiz corre antes de sair; ou do forame, a janela lateral de saída. Muitas vezes os três coexistem em mais de um nível.
Na coluna cervical, o mesmo processo pode comprimir a medula, o que configura mielopatia cervical, com sinais diferentes. A estenose torácica é rara.
Causas
A causa mais comum é degenerativa: artrose das facetas, osteófitos, abaulamento dos discos e espessamento do ligamento amarelo, somados em um canal que já era de tamanho médio ou pequeno. Outras causas:
- Canal estreito de nascença (congênito), que faz os sintomas aparecerem mais cedo e com menos desgaste
- Espondilolistese degenerativa, em que o deslizamento da vértebra fecha o canal
- Cistos sinoviais das facetas e hérnias de disco que ocupam espaço
- Cirurgia anterior, fraturas consolidadas com deformidade e, raramente, doenças ósseas, tumores ou infecção
Sintomas
O quadro clássico é a claudicação neurogênica: dor, peso, formigamento ou fraqueza nas pernas ao caminhar ou ficar em pé, com alívio ao sentar ou apoiar-se inclinado, como no carrinho do supermercado. A distância que se consegue caminhar vai diminuindo ao longo de meses ou anos. Diferentemente da claudicação vascular, subir ladeira ou pedalar costuma ser mais fácil do que caminhar no plano, e parar em pé não alivia: é preciso sentar ou curvar o tronco.
Quando a estenose é foraminal ou do recesso lateral, o sintoma é a dor irradiada de uma raiz (ciática), com ou sem claudicação. Dor lombar pode existir, mas raramente é o sintoma principal. Sinais que mudam a urgência: fraqueza que progride, dormência na região íntima, alteração para urinar ou evacuar.
Diagnóstico
História típica, exame físico e ressonância magnética. Na consulta, o especialista pergunta quanto você consegue caminhar antes de parar, o que alivia (sentar, inclinar o tronco) e se há fraqueza ou dormência. O exame inclui força, reflexos, sensibilidade e os pulsos dos pés, para separar a estenose de problemas de circulação, do quadril ou dos nervos periféricos.
A ressonância mostra onde e quanto o canal está estreitado, em quais níveis e se o estreitamento é central, foraminal ou do recesso. Radiografias em pé com flexão e extensão avaliam instabilidade associada (espondilolistese), que influencia a escolha da técnica se houver cirurgia. A tomografia detalha o osso quando a ressonância não é possível ou há dúvida sobre a anatomia das facetas. O grau descrito no laudo nem sempre corresponde à intensidade dos sintomas: a decisão parte do exame clínico, não do laudo. O quadro abaixo traduz os termos e os códigos CID, com a conduta para cada um.
Exames de imagem e CID
Como aparece no laudo
O laudo descreve a imagem; o que define a conduta é a correspondência entre o achado, os sintomas e o exame neurológico. Para cada termo, o que ele significa e o que fazer com ele.
- Estenose do canal central
- Estreitamento do canal por onde passam a medula, no pescoço, ou as raízes nervosas, na região lombar.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dificuldade para caminhar que melhora ao sentar, dor irradiada, fraqueza ou dormência nas pernas; sem sintomas, é achado da idade
- Grau leve, moderado ou acentuado (severo)
- Classificação visual do quanto o canal está estreitado. Descreve a imagem, não a gravidade dos sintomas: há canais acentuadamente estreitos em pessoas que caminham bem e estenoses moderadas que limitam muito.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: claudicação, fraqueza ou dor irradiada, independentemente do grau; o grau pesa na escolha da técnica, não na decisão de tratar
- Estenose foraminal
- Estreitamento do forame, o orifício lateral por onde a raiz nervosa sai da coluna. Pode comprimir a raiz e causar dor irradiada.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada no território da raiz desse forame, sobretudo em pé ou ao caminhar
- Estenose do recesso lateral
- Estreitamento do canto do canal por onde a raiz corre antes de sair pelo forame, em geral por artrose da faceta e abaulamento do disco. Comprime a raiz que ainda está descendo (transeunte).
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada ou formigamento no território dessa raiz
- Hipertrofia do ligamento amarelo
- Espessamento do ligamento que reveste a parte de trás do canal. Contribui para o estreitamento do canal, sobretudo na região lombar.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Artrose facetária
- Desgaste das pequenas articulações da parte de trás da coluna (facetas), que aumentam de volume e às vezes acumulam líquido.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Osteófito ("bico de papagaio")
- Crescimento ósseo nas bordas das vértebras ou das articulações, ligado ao desgaste. É muito comum e, em geral, sem importância — exceto quando estreita o canal ou o forame.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Abaulamento discal
- O disco se estende de forma ampla e difusa além do contorno das vértebras. É comum com o envelhecimento, não é o mesmo que hérnia e, sozinho, raramente explica dor irradiada.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Espondilolistese (listese)
- Escorregamento de uma vértebra sobre a de baixo, descrito em graus de I a IV conforme o tamanho do deslizamento. O grau sozinho não define o tratamento.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor mecânica, dor irradiada ou claudicação; a instabilidade associada muda o planejamento se houver cirurgia
- Estenose acentuada com compressão da cauda equina
- O canal ocupado a ponto de apertar o conjunto das raízes. A imagem sozinha não define urgência; os sintomas sim: dormência na região íntima, alteração para urinar ou evacuar, fraqueza nas duas pernas.
- Não espera: avaliação no mesmo dia
Códigos CID-10 que costumam acompanhar guias e relatórios
- M48.0 · Estenose da coluna vertebral (lombar, cervical ou torácica)
- M47.8 · Outras espondiloses (desgaste com osteófitos e artrose facetária)
- M43.1 · Espondilolistese
- M53.2 · Instabilidade da coluna vertebral
- M51.1 · Transtorno de disco lombar com radiculopatia
- M54.4 · Lumbago com ciática
- G83.4 · Síndrome da cauda equina
O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.
Tratamento: do conservador à cirurgia
A maioria começa com tratamento conservador: fisioterapia focada em flexibilidade, fortalecimento do tronco e condicionamento (a bicicleta ergométrica, com o tronco inclinado, costuma ser bem tolerada), controle da dor com medicação por tempo definido e ajuste de atividades. Muitas pessoas convivem bem por anos nesse degrau. Infiltrações peridurais guiadas por imagem podem aliviar os sintomas por períodos variáveis e são úteis em fases de piora.
A cirurgia é discutida quando a distância de caminhada ou o tempo em pé ficam limitados a ponto de comprometer a autonomia, apesar de tratamento conservador bem conduzido; quando há perda de força progressiva; ou quando surge alteração no controle da urina ou das fezes, situação que pede avaliação imediata. O procedimento é a descompressão: laminectomia ou laminotomia, que retiram a parte do osso e do ligamento que apertam as raízes, por técnica minimamente invasiva ou endoscópica sempre que a anatomia permite. A artrodese é acrescentada apenas se houver instabilidade ou espondilolistese que a descompressão isolada poderia agravar. A descompressão costuma trazer mais benefício para a dor e o peso nas pernas do que para a dor lombar isolada.
Dr. Marcelo Acosta
Na prática do consultório
O paciente com estenose lombar costuma ser mais velho e chega com uma dor em queimação nas pernas que piora ao andar e melhora com o repouso. Ele conta que antes andava um quilômetro, depois quinhentos metros, trezentos, cem, e que hoje só o trajeto até o banheiro ou a cozinha já provoca a queimação. É um quadro bem típico. Ele também nota que inclinar o tronco para a frente alivia, e que na academia consegue pedalar na bicicleta ergométrica, mas não andar na esteira. Esse padrão é muito compatível com estenose lombar e é confundido com frequência com claudicação vascular: o paciente passa primeiro pelo vascular, pelo cardiologista, pelo clínico, e só depois procura um especialista em coluna. Na ressonância, esses pacientes têm o canal vertebral estreitado com compressão das raízes. Hoje, em casos selecionados, isso pode ser tratado com técnicas pouco invasivas, como a descompressão endoscópica da coluna, o que mudou muito a recuperação desses pacientes.
Caminhar com estenose
Muitas pessoas mantêm uma rotina ativa com ajustes: caminhar em trechos, com pausas; usar apoio, como um carrinho ou bastões, nas distâncias maiores; preferir a bicicleta ergométrica, em que o tronco fica levemente inclinado para a frente, ou atividades na água; e manter o fortalecimento orientado. O objetivo é preservar a autonomia e a capacidade de caminhar. O que pede reavaliação é a piora progressiva da distância, a fraqueza ou a dormência que não passa ao sentar.
Quando procurar avaliação
Se a distância que você consegue caminhar está diminuindo, se as pernas pesam ou formigam ao ficar em pé, ou se um laudo descreve estenose e você não sabe o que ele significa no seu caso, a consulta com um especialista em coluna em São Paulo começa pelo exame, separa a estenose das outras causas de dor ao caminhar e define o degrau de tratamento. Fraqueza que progride, dormência na região íntima ou alteração urinária pedem atendimento no mesmo dia.
Perguntas frequentes
Estenose piora com o tempo?
A anatomia tende a evoluir lentamente, mas os sintomas oscilam. Muitas pessoas convivem bem com tratamento conservador; outras chegam a um ponto em que a distância de caminhada limita a vida — e aí a cirurgia passa a ser discutida.
Caminhar faz mal para quem tem estenose?
Em geral, não. Caminhar dentro do limite tolerado, com pausas, faz parte do tratamento. O que pede reavaliação é a piora progressiva da distância, a fraqueza ou a dormência que não passa ao sentar.
Qual especialista procurar para estenose do canal lombar?
Um especialista em coluna — neurocirurgião ou ortopedista com dedicação à coluna. Como a dor ao caminhar também pode ter origem na circulação ou no quadril, o exame clínico é parte essencial da avaliação.
Estenose lombar tem cura?
O estreitamento degenerativo não regride sozinho, mas os sintomas podem ser controlados por muito tempo com tratamento conservador. A descompressão cirúrgica abre o canal e resolve a compressão; o desgaste da coluna continua, e por isso o acompanhamento e o fortalecimento seguem depois.
Qual o CID da estenose lombar?
M48.0, estenose da coluna vertebral, que cobre a lombar, a cervical e a torácica. Quando há espondilolistese ou instabilidade associada, os códigos M43.1 e M53.2 costumam acompanhar; com dor irradiada, M51.1 ou M54.4. O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.
Estenose lombar e hérnia de disco: qual a diferença?
A hérnia é um deslocamento localizado do disco, mais comum em adultos jovens e de meia-idade, que costuma comprimir uma raiz e causar ciática. A estenose é o estreitamento difuso do canal por desgaste, mais comum depois da meia-idade, com claudicação ao caminhar. As duas podem coexistir, e a hérnia pode ser uma das causas do estreitamento.
Estenose lombar: quando operar?
Quando a limitação para caminhar ou ficar em pé compromete a autonomia apesar de tratamento conservador bem conduzido, quando há perda de força progressiva ou quando surgem sintomas de cauda equina. A decisão combina o exame clínico, a ressonância e as radiografias dinâmicas, e a técnica depende de haver ou não instabilidade.
Fisioterapia ajuda na estenose?
Sim. Flexibilidade lombar, fortalecimento do tronco e condicionamento ajudam a manter a distância de caminhada e a reduzir a dor. A fisioterapia não alarga o canal, mas muitas pessoas convivem bem por anos com esse cuidado e com os ajustes de atividade.
