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Dr. Marcelo Acosta — Neurocirurgia · Cirurgia da Coluna

Doença da coluna

Espondilolistese: anterolistese, retrolistese e espondilólise

Espondilolistese é o deslizamento de uma vértebra sobre a de baixo: para a frente (anterolistese), para trás (retrolistese) ou para o lado (laterolistese). Pode ser um achado sem importância ou a causa de dor lombar e compressão nervosa. O grau, a estabilidade e os sintomas definem o caminho. Este guia explica os termos do laudo, inclusive a espondilólise que costuma estar na origem, os tipos, o diagnóstico, o CID e o tratamento do conservador à cirurgia.

Revisão técnica: Dr. Marcelo Acosta (CRM-SP 164159 / RQE 80588). Atualizado em 28 de outubro de 2026.

O que é

Espondilolistese é o deslizamento de uma vértebra sobre a de baixo. Na maioria das vezes o deslizamento é para a frente, a anterolistese, e é isso que o laudo chama simplesmente de espondilolistese ou listese. Classifica-se em graus (I a IV, classificação de Meyerding) pela fração da vértebra que deslizou; graus I e II são a grande maioria e, muitas vezes, achados sem sintomas.

Retrolistese é o deslizamento para trás: em geral pequeno, degenerativo e sem importância isolada. Laterolistese é o deslizamento lateral, visto quase sempre na escoliose degenerativa do adulto. Espondilólise é outra coisa: um defeito (fratura de estresse ou falha) na pars interarticularis, a pequena ponte óssea da parte de trás da vértebra; pode existir sem nenhum deslizamento e é a origem da espondilolistese ístmica.

Esquema em vista lateral de espondilolistese, com a vértebra superior escorregada para a frente.
Esquema ilustrativo — não representa o exame de um paciente.

Causas e tipos

O tipo define a causa e o comportamento ao longo do tempo:

  • Ístmica: espondilólise (defeito na pars interarticularis), geralmente adquirida na infância ou na adolescência por esforço repetido em extensão, como na ginástica e no futebol; comum em L5-S1 e, muitas vezes, descoberta anos depois
  • Degenerativa: desgaste do disco e das facetas que deixa a vértebra escorregar, sobretudo em L4-L5, mais frequente com o avançar da idade e em mulheres; é a que mais se associa à estenose do canal
  • Displásica (congênita): malformação das facetas ou do sacro, presente desde o nascimento, com tendência a graus mais altos
  • Traumática e patológica: fratura aguda, tumor ou infecção que enfraquecem a vértebra; raras
  • Pós-cirúrgica: deslizamento depois de descompressão ampla sem fusão

Sintomas

Dor lombar mecânica, pior em pé, ao caminhar e ao estender o tronco, que melhora sentado ou deitado; às vezes sensação de falseio ao levantar. Quando o deslizamento fecha o forame ou o canal, dor irradiada para as pernas (ciática) ou claudicação neurogênica, a dificuldade progressiva para caminhar que melhora ao sentar. Em adolescentes com listese ístmica, encurtamento dos isquiotibiais, alteração da marcha e dor ao esporte.

Muitas listeses de grau baixo não dão sintoma algum e aparecem por acaso numa radiografia. Sinais que mudam a urgência: fraqueza que progride, dormência na região íntima, alteração para urinar ou evacuar.

Diagnóstico

Radiografias em pé com incidências dinâmicas (flexão e extensão) mostram o deslizamento, o grau e se ele muda com o movimento, o que define instabilidade; a ressonância deitada não dá essa informação, e por isso costuma subestimar a listese. A ressonância avalia disco, forames, canal e compressão nervosa. A tomografia detalha a pars interarticularis quando há dúvida sobre espondilólise.

Na consulta, o especialista compara o nível do deslizamento com o território dos sintomas e com o exame neurológico (força, reflexos, sensibilidade, marcha). O quadro abaixo traduz os termos do laudo e os códigos CID, com a conduta para cada um.

Exames de imagem e CID

Como aparece no laudo

O laudo descreve a imagem; o que define a conduta é a correspondência entre o achado, os sintomas e o exame neurológico. Para cada termo, o que ele significa e o que fazer com ele.

Anterolistese (listese anterior)
A vértebra de cima deslizou para a frente sobre a de baixo. É a forma mais comum, e é o que o laudo chama de espondilolistese quando não especifica a direção. Vem com o grau (I a IV) ou com a medida do deslizamento em milímetros.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor lombar mecânica, dor irradiada para as pernas ou dificuldade para caminhar; sem sintomas, acompanhamento
Grau I a IV (classificação de Meyerding)
Mede quanto da vértebra deslizou: grau I é até um quarto da largura da vértebra de baixo; II, até metade; III, até três quartos; IV, além disso. Quando a vértebra cai inteira para a frente, chama-se espondiloptose. Graus I e II são a grande maioria.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sintomas ou progressão entre radiografias; o grau sozinho não define o tratamento, mas graus altos em jovens pedem avaliação mais cedo
Retrolistese (listese posterior)
A vértebra de cima deslizou para trás. Em geral é pequena, degenerativa, ligada à perda de altura do disco, e muito frequente em laudos de pessoas sem dor.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Laterolistese (listese lateral)
Deslizamento para o lado, quase sempre dentro de uma escoliose degenerativa do adulto. Pode fechar o forame do lado para onde a vértebra deslizou.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada do lado do deslizamento ou desequilíbrio do tronco
Espondilólise (defeito da pars interarticularis)
Falha na pequena ponte óssea da parte de trás da vértebra, origem da espondilolistese ístmica. No adulto com achado antigo, já consolidado em fibrose, é um achado comum, sem valor isolado. No adolescente ou adulto jovem com dor lombar ligada a esporte de extensão (ginástica, futebol, tênis), pode ser uma fratura de estresse recente, que nessa fase ainda pode consolidar com afastamento do esporte e órtese.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: adolescente ou adulto jovem com dor lombar relacionada a esporte de extensão (ginástica, futebol, tênis), porque a lesão recente pode consolidar com afastamento e órtese
Instabilidade segmentar
Movimento anormal entre duas vértebras, visto nas radiografias em pé com flexão e extensão. É o achado que mais pesa na indicação de artrodese; a ressonância deitada não o mostra.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor que piora em pé ou ao mudar de posição, sensação de falseio, ou deslizamento que muda entre flexão e extensão
Estenose foraminal
Estreitamento do forame, o orifício lateral por onde a raiz nervosa sai da coluna. Pode comprimir a raiz e causar dor irradiada.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada no território da raiz desse forame, sobretudo em pé ou ao caminhar
Estenose do canal central
Estreitamento do canal por onde passam a medula, no pescoço, ou as raízes nervosas, na região lombar.
Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dificuldade para caminhar que melhora ao sentar, fraqueza ou dormência nas pernas
Artrose facetária
Desgaste das pequenas articulações da parte de trás da coluna (facetas), que aumentam de volume e às vezes acumulam líquido.
Achado comum da idade, sem valor isolado
Listese com compressão nervosa e perda de função
Deslizamento, em geral de grau alto ou instável, que aperta raízes ou a cauda equina. A imagem não define a urgência; os sintomas sim.
Não espera: avaliação no mesmo dia

Códigos CID-10 que costumam acompanhar guias e relatórios

  • M43.1 · Espondilolistese (anterolistese, retrolistese e laterolistese adquiridas)
  • M43.0 · Espondilólise
  • Q76.2 · Espondilolistese congênita (displásica)
  • M53.2 · Instabilidade da coluna vertebral
  • M48.0 · Estenose da coluna vertebral
  • M51.1 · Transtorno de disco lombar com radiculopatia
  • M41 · Escoliose (laterolistese na escoliose degenerativa)
  • S33.1 · Luxação de vértebra lombar (listese traumática)

O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.

Tratamento: do conservador à cirurgia

A primeira linha é o tratamento conservador: fortalecimento do tronco e dos glúteos, controle de carga e de movimentos de hiperextensão repetida, analgesia por tempo definido e, em adolescentes com espondilólise recente, afastamento temporário do esporte, às vezes com órtese. Infiltrações e bloqueios guiados por imagem tratam a dor radicular ou facetária associada.

A cirurgia é considerada em deslizamento que progride nas radiografias, instabilidade sintomática comprovada nas incidências dinâmicas, ou compressão nervosa com dor refratária ou perda de força. O procedimento é a descompressão com artrodese do segmento, porque descomprimir sem fundir um segmento instável tende a aumentar o deslizamento; as técnicas incluem TLIF minimamente invasivo e ALIF, com fixação percutânea quando possível. O grau isolado, sem sintomas, não é indicação de cirurgia.

Dr. Marcelo Acosta

Na prática do consultório

A espondilolistese é relativamente comum no consultório. Em geral, o paciente recebe o diagnóstico num exame (ressonância, tomografia ou radiografia) pedido por outro colega, no atendimento primário, para investigar uma dor lombar persistente. Mas nem toda espondilolistese causa dor: em muitos casos ela está fixa, sem instabilidade, e não provoca sintoma. Os casos que precisam de tratamento são os instáveis, em que a vértebra se move nas radiografias com flexão e extensão, e os que têm radiculopatia pelo deslocamento da vértebra com compressão da raiz. Nesses casos, a imobilização é importante para tratar o movimento anormal, e pode ser complementada por via anterior ou lateral, com espaçadores (cages) que recuperam a altura do espaço discal e ajudam a corrigir o equilíbrio sagital. A primeira coisa que peço a quem chega com “escorregamento” no laudo é a radiografia em pé, com flexão e extensão: é ela, e não a ressonância deitada, que mostra se a vértebra se move.

Quando procurar avaliação

Se o seu laudo mencionou espondilolistese, anterolistese, retrolistese ou espondilólise e você tem dor lombar persistente, dor que desce para as pernas, dificuldade para caminhar ou sensação de falseio, a consulta com um médico especialista em coluna define, com radiografias dinâmicas, se o segmento é estável e qual é o degrau de tratamento. Achado sem sintomas pede orientação e acompanhamento, não cirurgia. Fraqueza que progride, dormência na região íntima ou alteração urinária pedem atendimento no mesmo dia.

Perguntas frequentes

Espondilolistese piora com o tempo?

Na forma degenerativa, o deslizamento tende a estabilizar-se com o próprio enrijecimento do segmento; a progressão é mais preocupante em jovens com graus altos. Acompanhamento radiográfico define.

Posso fazer exercício?

Deve. Fortalecimento de core e glúteos é a base do tratamento. Movimentos de hiperextensão repetida com carga merecem cautela.

Espondilolistese grau I precisa de cirurgia?

Em geral, não. O grau I é um deslizamento pequeno e, muitas vezes, um achado sem sintomas. A conduta depende dos sintomas, da estabilidade e da resposta ao tratamento — não apenas do grau.

Qual especialista trata espondilolistese?

Um especialista em coluna — neurocirurgião ou ortopedista com dedicação à coluna —, que avalie os sintomas, as radiografias dinâmicas e a ressonância antes de definir o tratamento.

Qual a diferença entre espondilólise e espondilolistese?

Espondilólise é o defeito na pars interarticularis, a ponte óssea da parte de trás da vértebra; pode existir sem deslizamento algum. Espondilolistese é o deslizamento da vértebra. A espondilólise é a causa da espondilolistese ístmica, mas muitas pessoas têm espondilólise a vida inteira sem a vértebra escorregar.

Anterolistese e espondilolistese são a mesma coisa?

Na prática, sim. Anterolistese é o deslizamento para a frente, de longe o mais comum; quando o laudo diz apenas espondilolistese, é disso que está falando. Retrolistese (para trás) e laterolistese (para o lado) são as outras direções, menos frequentes.

Retrolistese é grave?

Raramente. Costuma ser pequena, degenerativa, ligada à perda de altura do disco, e aparece em muitos laudos de pessoas sem dor. Merece atenção quando vem com dor irradiada ou estreitamento do forame no mesmo nível; sozinha, é um achado do desgaste.

Qual o CID da espondilolistese?

M43.1 para a espondilolistese adquirida, que inclui anterolistese, retrolistese e laterolistese; M43.0 para a espondilólise; Q76.2 para a forma congênita. Quando há instabilidade ou estenose associadas, M53.2 e M48.0 costumam acompanhar. O código identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.

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