Tratamento · degrau 5
ALIF: artrodese lombar por via anterior
ALIF (artrodese lombar intersomática anterior) é a fusão de um nível lombar feita pela frente, por uma incisão baixa no abdome, sem cortar a musculatura das costas. Permite retirar o disco por completo e colocar um espaçador grande, que devolve altura e lordose ao segmento. O Dr. Marcelo realiza ALIF de L2–L3 a L5–S1, conforme a anatomia vascular de cada paciente. Este guia explica como a cirurgia funciona, quando é indicada, quando não é possível, como se compara às outras vias e o que esperar da recuperação.
Revisão técnica: Dr. Marcelo Acosta (CRM-SP 164159 / RQE 80588). Atualizado em 28 de outubro de 2026.
O que é e como funciona
ALIF é uma das formas de artrodese lombar: a fusão de duas vértebras em um bloco, com um espaçador intersomático (cage) preenchido com enxerto no lugar do disco. A diferença está no caminho. Em vez de chegar ao disco pelas costas, o acesso é anterior: uma incisão baixa no abdome e, por via retroperitoneal (por fora do saco que envolve os intestinos), chega-se à face da frente do disco, entre os grandes vasos. A musculatura posterior da coluna não é tocada.
A cirurgia é feita em dupla. O cirurgião de acesso (vascular ou geral) abre o caminho pela frente, afasta os intestinos e mobiliza a aorta, a veia cava e as veias ilíacas para expor o disco com segurança; o cirurgião de coluna retira o disco por completo, prepara as superfícies das vértebras, coloca o espaçador com enxerto e corrige a altura e o alinhamento. O espaçador anterior é maior do que o que cabe pelas vias posteriores e pode ser fixado com placa ou parafusos próprios; em muitos casos, a fixação é complementada por parafusos percutâneos pelas costas, no mesmo dia ou em um segundo tempo.
O Dr. Marcelo realiza ALIF de L2–L3 a L5–S1, conforme a anatomia vascular de cada paciente. Nem todo nível é candidato: a posição da bifurcação da aorta e da confluência das veias ilíacas varia de pessoa para pessoa, e é a tomografia ou a angiorressonância que mostra se existe uma janela segura em cada nível.
Quando o ALIF é indicado
O ALIF trata os mesmos problemas que justificam uma artrodese; a via é escolhida quando as vantagens do acesso anterior pesam para aquele paciente e aquele nível:
- Discopatia sintomática refratária, bem caracterizada, com colapso do espaço discal, em que o espaçador grande devolve altura e abre os forames
- Espondilolistese de baixo grau, em especial ístmica em L5-S1, em que a via anterior restaura o alinhamento
- Revisão de artrodese posterior que não consolidou (pseudoartrose), chegando ao disco por um caminho ainda não operado
- Correção de perda de lordose e desequilíbrio sagital, em que o espaçador anterior permite maior correção no nível
- Estenose foraminal por perda de altura discal, em que restaurar a altura descomprime as raízes indiretamente
Sintomas e quadros que levam à indicação
Dor lombar mecânica de origem discal, central, pior sentado e ao flexionar, que não melhorou com tratamento conservador por longo período; dor irradiada para as pernas por estreitamento dos forames num disco colapsado; sensação de falseio em listese ou instabilidade; dificuldade para ficar ereto e cansaço ao final do dia quando há perda de lordose. Em todos eles, a indicação nasce da correspondência entre sintomas, exame e imagem, não do laudo sozinho.
Sinais que não esperam: perda de força que progride, dormência na região íntima, alteração para urinar ou evacuar. Pedem avaliação no mesmo dia, independentemente da técnica cogitada.
Diagnóstico e planejamento: o que os exames precisam mostrar
Primeiro, a indicação de artrodese: história e exame neurológico, radiografias em pé com flexão e extensão (instabilidade, listese) e ressonância (disco, forames, compressão). Em desequilíbrio do tronco, radiografias de coluna inteira em pé medem a lordose e o alinhamento. Depois, a escolha da via: a tomografia ou a angiorressonância mostram a posição da aorta, da veia cava e das veias ilíacas em cada nível e definem se há janela para o acesso anterior ou se outra via é mais segura. A angiotomografia ou a angiorressonância faz parte do planejamento de rotina do ALIF, não é um exame extra pedido por insegurança: é ela que mostra onde os vasos estão e orienta o acesso. O cirurgião de acesso também avalia o paciente antes da cirurgia, em consulta própria, e participa do planejamento. O quadro abaixo traduz os termos do laudo e os códigos CID, com a conduta para cada um.
Exames de imagem e CID
Como aparece no laudo
O laudo descreve a imagem; o que define a conduta é a correspondência entre o achado, os sintomas e o exame neurológico. Para cada termo, o que ele significa e o que fazer com ele.
- Desidratação discal (disco "escurecido")
- Perda de água do disco, que aparece mais escuro na ressonância. Faz parte do envelhecimento natural da coluna.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Zona de alta intensidade (fissura anular)
- Pequeno ponto claro no anel do disco que indica uma fissura. Pode se associar à dor de origem no disco, mas também é visto em pessoas sem dor.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Alterações de Modic
- Alterações no osso das vértebras vizinhas a um disco desgastado, classificadas em tipos 1, 2 e 3. Podem acompanhar a dor lombar, mas também aparecem em pessoas sem dor.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor lombar central, pior sentado e ao flexionar, que não melhorou com tratamento conservador bem conduzido por longo período
- Perda de altura discal com colapso do espaço (discopatia avançada)
- O disco perdeu quase toda a altura e as vértebras se aproximaram, o que fecha os forames e tira a lordose. É um dos achados em que o espaçador grande do ALIF faz diferença, porque devolve altura e abre os forames.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada por estreitamento dos forames ou dor lombar mecânica refratária; sem sintomas, é desgaste da idade
- Espondilolistese (listese)
- Escorregamento de uma vértebra sobre a de baixo, descrito em graus de I a IV conforme o tamanho do deslizamento. O grau sozinho não define o tratamento.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor mecânica, dor irradiada ou dificuldade para caminhar que não melhoram; o grau sozinho não define
- Instabilidade segmentar
- Movimento anormal entre duas vértebras, visto nas radiografias em pé com flexão e extensão. É o achado que mais pesa na indicação de artrodese; a ressonância deitada não o mostra.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor que piora em pé ou ao mudar de posição, sensação de falseio
- Perda de lordose lombar ou desequilíbrio sagital
- A curva natural da lombar diminuiu e o tronco tende a cair para a frente, o que aparece nas radiografias de coluna inteira em pé. A via anterior permite espaçadores que restauram a lordose no nível operado.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dificuldade para ficar ereto, cansaço ao final do dia ou dor que piora em pé
- Pseudoartrose (fusão não consolidada)
- Depois de uma artrodese, o enxerto não formou osso contínuo entre as vértebras. Pode não dar sintomas ou causar dor e exigir revisão.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor persistente ou que voltou meses depois de uma artrodese posterior; o ALIF é uma das vias usadas na revisão
- Anatomia vascular: bifurcação da aorta e confluência das veias ilíacas
- A aorta e a veia cava se dividem na frente da coluna lombar, em altura que varia de pessoa para pessoa. A tomografia ou a angiorressonância mostram se, em cada nível, existe uma janela entre os vasos para o acesso anterior. Não é um achado de doença: é o que define se o ALIF é possível naquele nível.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: há indicação de artrodese e se cogita a via anterior; a imagem vascular define a técnica
- Compressão neural com perda de função em segmento instável
- Deslizamento ou colapso que aperta raízes ou a cauda equina. A imagem não define a urgência; os sintomas sim.
- Não espera: avaliação no mesmo dia
Códigos CID-10 que costumam acompanhar guias e relatórios
- M51.3 · Outra degeneração especificada de disco intervertebral (discopatia)
- M43.1 · Espondilolistese
- M53.2 · Instabilidade da coluna vertebral
- M48.0 · Estenose da coluna vertebral
- M51.1 · Transtorno de disco lombar com radiculopatia
- M40 · Cifose e lordose (perda de lordose lombar)
- M96.0 · Pseudoartrose após fusão ou artrodese
- M96.1 · Síndrome pós-laminectomia
- Z98.1 · Estado de artrodese (fusão) da coluna
O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.
Antes do ALIF: a escada de tratamento
Salvo instabilidade grosseira, fratura ou déficit neurológico, a artrodese é o último degrau. Antes dela vêm o tratamento conservador por tempo definido, com fisioterapia dirigida, controle da dor e ajuste de atividades; a infiltração ou o bloqueio guiado por imagem para dor radicular ou facetária; e, quando o problema é a compressão e não a instabilidade, a descompressão isolada, endoscópica ou minimamente invasiva. O ALIF entra quando há alvo mecânico para a fusão e o restante não bastou.
Tratamento cirúrgico: diferenças práticas entre ALIF, TLIF, OLIF e LLIF
As quatro técnicas fazem a mesma coisa, a fusão intersomática, por caminhos diferentes. Nenhuma é melhor em geral: a escolha depende do nível, da anatomia dos vasos e do músculo psoas, do que precisa ser corrigido e de se as raízes precisam ser descomprimidas diretamente. O que muda para o paciente:
ALIF (anterior): deitado de costas, incisão baixa no abdome, musculatura das costas intocada, espaçador maior e maior correção de lordose; exige cirurgião de acesso e anatomia vascular favorável; riscos próprios do acesso anterior (vascular, ejaculação retrógrada em homens em L5-S1, íleo transitório); pode precisar de parafusos percutâneos posteriores.
TLIF (posterior, pelo forame): deitado de bruços, incisão nas costas ao lado da linha média, por técnica minimamente invasiva quando possível; permite descomprimir as raízes diretamente no mesmo ato e colocar os parafusos pela mesma via; espaçador menor; serve a qualquer nível lombar e não depende dos vasos; há manipulação da musculatura posterior, reduzida pelas técnicas percutâneas.
OLIF (oblíquo): deitado de lado, incisão no flanco, corredor oblíquo entre o psoas e os vasos, sem atravessar o músculo; musculatura das costas intocada e espaçador grande; serve de L2 a L5 e, em casos selecionados, L5-S1; risco vascular existe, menor manipulação do psoas do que no LLIF.
LLIF (lateral): deitado de lado, incisão no flanco, atravessa o músculo psoas com monitorização neurológica; espaçador grande e boa correção de alinhamento; níveis acima de L5 (L5-S1 fica escondido pela bacia); dormência ou fraqueza temporária na coxa é a queixa mais comum depois.
Em todas, a fixação com parafusos percutâneos, a navegação e a monitorização neurológica reduzem a agressão e aumentam a segurança. A técnica é definida caso a caso, com os exames em mãos.
Dr. Marcelo Acosta
Na prática do consultório
Faço ALIF de L2–L3 a L5–S1, conforme a anatomia vascular de cada paciente. O acesso pela frente é feito em conjunto com o Dr. Aécio Dias (CRM-SP 88377, RQE 20840) e a equipe do Instituto de Acessos à Coluna (IAAD), especializados em acessos anterior e lateral à coluna e com papel pioneiro na difusão dessa técnica no Brasil; eu entro na parte da coluna: retirada do disco, colocação do espaçador e correção do alinhamento. Essa divisão é o que torna a cirurgia segura nos níveis mais altos, onde a aorta e a veia cava estão próximas. O que explico ao paciente é que nem todo nível é candidato: a angiotomografia ou a angiorressonância mostra se há espaço entre os vasos para chegar ao disco, e é isso que define a técnica, não a preferência do cirurgião.
Quando o ALIF não é possível
A via anterior depende de uma janela segura entre os vasos e de um abdome que permita o acesso. Situações em que o ALIF não é indicado e outra via assume:
- Aorta e veia cava, ou suas divisões, sem espaço para o acesso naquele nível (bifurcação baixa, veias ilíacas que cobrem o disco)
- Cirurgia abdominal ou pélvica prévia com aderências no retroperitônio, ou irradiação prévia da região
- Obesidade importante, que afasta a parede do abdome da coluna e dificulta a exposição
- Infecção ativa na região ou doença vascular que torne a mobilização dos vasos arriscada
- Necessidade de descomprimir as raízes diretamente por trás no mesmo ato, quando a descompressão indireta não basta
Recuperação
Caminhar desde o primeiro dia; internação de poucos dias; dor na parede do abdome nos primeiros dias, em geral menor do que a dor muscular das vias posteriores; dieta progressiva até o intestino voltar ao ritmo. Retorno a atividades leves e a trabalho de escritório ao longo das primeiras semanas; esforço físico e esporte de impacto esperam a consolidação óssea, que leva meses. Fisioterapia orientada faz parte. Fumar e diabetes mal controlado atrapalham a fusão e são tratados antes da cirurgia.
Riscos específicos
Além dos riscos gerais da artrodese (infecção, sangramento, lesão de nervo ou da dura-máter, fusão que não consolida, desgaste dos níveis vizinhos ao longo dos anos), a via anterior tem riscos próprios: lesão vascular, rara e mitigada pela presença do cirurgião de acesso e pelo planejamento com a imagem dos vasos; ejaculação retrógrada em homens operados em L5-S1, incomum, por irritação do plexo nervoso que passa à frente do disco; íleo transitório (intestino lento por alguns dias); hérnia da parede abdominal. Todos são discutidos individualmente na consulta.
Quando procurar avaliação
Se você recebeu indicação de artrodese lombar e quer saber se a via anterior é adequada ao seu caso, se tem uma artrodese que não consolidou, ou se a dor lombar ou irradiada persiste apesar de tratamento bem conduzido, a consulta com um médico especialista em coluna em São Paulo confirma primeiro se há indicação de fusão e, depois, com tomografia ou angiorressonância, se o seu nível permite o ALIF ou pede outra via. Em indicação de artrodese, uma segunda opinião é prática reconhecida. Perda de força que progride, dormência na região íntima ou alteração urinária pedem atendimento no mesmo dia.
Perguntas frequentes
Por que operar pela barriga se o problema é nas costas?
Porque a via anterior chega ao disco sem cortar a musculatura das costas e permite colocar um espaçador maior, que ajuda a restaurar a altura do disco e o alinhamento. O acesso é feito junto com um cirurgião vascular ou geral.
Quem é candidato à ALIF?
Pacientes com indicação de artrodese em um nível lombar de L2–L3 a L5–S1, com anatomia vascular favorável naquele nível. Cirurgias abdominais prévias, obesidade importante, infecção e algumas condições vasculares podem contraindicar a via anterior; nesses casos, TLIF, OLIF ou LLIF fazem a mesma fusão por outro caminho.
Quais níveis podem ser operados por ALIF?
O Dr. Marcelo realiza ALIF de L2–L3 a L5–S1, conforme a anatomia vascular de cada paciente. Nem todo nível é candidato: a posição da bifurcação da aorta e das veias ilíacas varia, e a tomografia ou a angiorressonância define, nível a nível, se existe janela segura para o acesso.
ALIF ou TLIF: qual é melhor?
Nenhuma é melhor em geral. O ALIF poupa a musculatura das costas e permite espaçador maior e mais correção de lordose, mas depende dos vasos e exige cirurgião de acesso. O TLIF descomprime as raízes diretamente, coloca os parafusos pela mesma via e serve a qualquer nível. A escolha é feita caso a caso, com os exames em mãos.
ALIF precisa de parafusos nas costas?
Nem sempre. O espaçador anterior pode ser fixado com placa ou parafusos próprios. Em muitos casos, sobretudo em listese ou instabilidade, a fixação é complementada por parafusos percutâneos pelas costas, por pequenas incisões, no mesmo dia ou em um segundo tempo.
A cirurgia é feita por dois cirurgiões?
Sim. O cirurgião de acesso (vascular ou geral) abre o caminho pela frente, entre os vasos, e o cirurgião de coluna faz a retirada do disco, a colocação do espaçador e a correção do alinhamento. O trabalho em dupla é parte da segurança da via anterior.
Quanto tempo leva a recuperação do ALIF?
Caminhada desde o primeiro dia e alta em poucos dias. Atividades leves voltam ao longo das primeiras semanas; a consolidação óssea leva meses, e esforço físico e esporte de impacto esperam por ela. O ritmo depende do número de níveis, da fixação usada e das condições de saúde de cada pessoa.
Qual o CID do ALIF?
O ALIF é um procedimento, não uma doença. O CID que aparece em guias e relatórios é o da condição tratada — discopatia (M51.3), espondilolistese (M43.1), instabilidade (M53.2), pseudoartrose de artrodese anterior (M96.0), entre outros — e, depois da cirurgia, o estado de artrodese pode ser registrado como Z98.1. O código serve ao registro e à operadora; não define a indicação.
