Doença da coluna
Hérnia de disco lombar
A hérnia de disco lombar é uma das causas mais comuns de dor ciática. Também é uma das mais superestimadas: boa parte das hérnias regride sozinha, e a decisão de operar depende muito mais dos sintomas e do exame neurológico do que do tamanho da hérnia na ressonância.
Conteúdo revisado por Dr. Marcelo Augusto Acosta Goiri — Neurocirurgião — CRM-SP 164159 — RQE 80588. Atualizado em 17 de agosto de 2026.
O que é
O disco intervertebral funciona como um amortecedor entre as vértebras. Quando seu núcleo se desloca através de uma fissura do anel fibroso e avança para o canal ou para o forame, pode comprimir e inflamar uma raiz nervosa. Os níveis L4-L5 e L5-S1 concentram a maioria dos casos.
Sintomas
O sintoma característico é a dor irradiada para a perna, seguindo o trajeto da raiz comprimida (dor ciática), frequentemente mais intensa do que a dor lombar. Pode haver formigamento, dormência e, nos casos com compressão importante, perda de força — dificuldade para levantar a ponta do pé, por exemplo. Nem toda hérnia produz sintomas: achados de imagem sem correspondência clínica são comuns.
Causas
Degeneração natural do disco, esforços repetidos ou súbitos com carga e rotação, predisposição individual e tabagismo. Sedentarismo e sobrepeso aumentam a carga sobre a coluna lombar, mas a hérnia também acomete pessoas ativas.
Diagnóstico
A história e o exame neurológico orientam a suspeita e o nível provável. A ressonância magnética confirma a hérnia e mostra sua relação com a raiz. A imagem só tem valor quando interpretada junto com o exame: é o conjunto que define conduta.
Tratamento
A maioria das hérnias lombares sintomáticas melhora em seis a doze semanas com tratamento conservador: analgesia e anti-inflamatórios por tempo definido, orientação de atividade e fisioterapia progressiva.
Quando a dor radicular persiste, uma infiltração ou bloqueio peridural transforaminal guiado por imagem pode reduzir a inflamação da raiz e permitir avançar na reabilitação — evitando ou adiando cirurgia em parte dos casos.
A cirurgia é considerada quando há déficit neurológico progressivo, dor refratária após tratamento adequado, ou síndrome da cauda equina (urgência). As técnicas atuais — cirurgia endoscópica e microdiscectomia — retiram o fragmento herniado com pequena incisão, preservando as estruturas ao redor, e costumam permitir alta precoce.
Quando a cirurgia pode ser considerada
Três situações principais: perda de força progressiva; dor incapacitante que não respondeu a semanas de tratamento bem conduzido; e sinais de compressão da cauda equina, que exigem intervenção rápida. Fora desses cenários, dar tempo ao tratamento conservador costuma ser a decisão mais segura.
Recuperação
Após cirurgia endoscópica ou microdiscectomia, o retorno às atividades leves ocorre em dias e a reabilitação orientada acelera a recuperação funcional. A dor na perna costuma melhorar rapidamente; a dormência pode levar mais tempo para regredir.
Sinais de alerta
- Perda progressiva de força na perna ou no pé
- Dormência na região íntima ("em sela")
- Dificuldade para urinar ou incontinência
- Dor intensa que não alivia com medicação em nenhuma posição
Perguntas frequentes
- Hérnia de disco tem cura?
- Muitas hérnias regridem espontaneamente e os sintomas desaparecem. O disco não volta a ser o que era, mas isso não impede vida normal. O objetivo do tratamento é resolver os sintomas e proteger a função nervosa.
- Toda hérnia precisa operar?
- Não. A minoria precisa. A indicação depende de déficit neurológico, resposta ao tratamento conservador e correlação entre sintomas e imagem — não do tamanho da hérnia.
- Qual a diferença entre endoscopia e microdiscectomia?
- Ambas retiram o fragmento herniado com preservação de estruturas. A endoscopia usa uma via ainda menor, com câmera e irrigação contínua; a microdiscectomia usa microscópio por uma incisão de poucos centímetros. A escolha depende da localização da hérnia, da anatomia e da experiência do cirurgião.
Referências
- North American Spine Society. Evidence-Based Clinical Guidelines for Multidisciplinary Spine Care: Diagnosis and Treatment of Lumbar Disc Herniation with Radiculopathy.
- Chiu CC et al. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clin Rehabil. 2015.
