Tratamentos · 8 min de leitura
Remédios para dor no nervo da coluna (pregabalina, gabapentina e duloxetina): por que são prescritos e quando ajudam

Se você saiu da consulta com uma receita de pregabalina, gabapentina ou duloxetina para a coluna, é natural estranhar: são remédios conhecidos por tratar epilepsia ou depressão. Este texto explica por que eles entram no tratamento da dor que vem do nervo, o que as diretrizes recomendam, o que esperar nas primeiras semanas e o que fazer se a dor não melhorar. Tudo aqui pressupõe prescrição e acompanhamento médico; nada substitui a sua receita.
Conteúdo revisado por Dr. Marcelo Augusto Acosta Goiri — Neurocirurgião — CRM-SP 164159 — RQE 80588. Atualizado em 29 de outubro de 2026.
Dor do nervo não é dor comum
A dor mecânica, a do músculo, da articulação ou do disco sobrecarregado, responde aos analgésicos comuns e aos anti-inflamatórios, porque nasce de um tecido inflamado. A dor do nervo é outra coisa: quando uma raiz nervosa fica comprimida e inflamada na saída da coluna, como na dor ciática ou na compressão radicular, o próprio nervo passa a disparar sinais de dor por conta própria. É como um fio desencapado que dá choque ao menor toque: queimação, choque, agulhadas, formigamento num trajeto definido, dor que acorda à noite.
Nesse caso, o nervo está sensibilizado, e o problema não é só a inflamação ao redor, mas a forma como ele conduz o sinal. Por isso o analgésico comum ajuda pouco, e por isso existem remédios que agem na condução do nervo e na maneira como a medula e o cérebro processam a dor. São eles que o médico chama de medicação para dor neuropática. Por isso o seu médico pode indicar um remédio diferente dos analgésicos comuns.
Por que um remédio "de epilepsia" ou "de depressão"
Pregabalina e gabapentina nasceram como anticonvulsivantes: reduzem a excitabilidade das células nervosas, e é exatamente isso que se quer num nervo que dispara sozinho. Duloxetina e, em dose baixa, a amitriptilina nasceram como antidepressivos: aumentam a disponibilidade de mensageiros químicos (serotonina e noradrenalina) que a própria medula usa para frear a dor que sobe para o cérebro. O nome da classe diz de onde o remédio veio, não para que ele está sendo usado no seu caso.
Quando são prescritos para a coluna, não é porque o médico acha que a dor "é da cabeça" nem porque suspeita de epilepsia. É porque, em pacientes selecionados, agem no mecanismo da dor neuropática. As doses e o esquema são definidos conforme prescrição médica, caso a caso.
Os primeiros dias: efeitos colaterais e por que se começa devagar
Sonolência, tontura, sensação de cabeça pesada, ganho de peso e inchaço (sobretudo com pregabalina e gabapentina), náusea e boca seca (sobretudo com duloxetina) são os mais frequentes. Em geral aparecem nos primeiros dias e diminuem com a adaptação. Por isso a prescrição costuma começar à noite, com introdução gradual, e as mudanças de dose são feitas conforme orientação médica, nunca por conta própria. Efeitos que persistem ou incomodam devem ser comunicados ao médico, que pode ajustar o esquema ou trocar o remédio.
Diferente do analgésico comum, que age em horas, esses remédios levam dias a semanas para mostrar o efeito, porque dependem da adaptação do nervo e do ajuste gradual. O tempo varia de pessoa para pessoa. É por isso que a reavaliação é marcada para algumas semanas depois do início: é nesse ponto que se decide se o remédio ajudou, se precisa de ajuste ou se deve ser revisto.
Onde eles entram na escada de tratamento
A medicação para dor neuropática faz parte do tratamento conservador, no segundo degrau da escada: junto com a orientação sobre atividade, o controle da dor e a reabilitação com fisioterapia, por um prazo definido e com reavaliação marcada. Ela não substitui o movimento nem a fisioterapia; serve para tornar a reabilitação possível enquanto a inflamação da raiz cede e, no caso da hérnia de disco, enquanto ela tende a regredir.
Nem todo caso passa por todos os degraus. Quem tem déficit neurológico que progride ou sinais de cauda equina não espera o efeito de remédio nenhum; e muita gente melhora só com orientação e fisioterapia, sem precisar dessa classe de medicação.
Quando costuma ajudar e quando não ajuda
Costuma ajudar: dor com choque, queimação ou agulhadas num trajeto definido, com componente neuropático claro no exame, usada como parte da reabilitação e por prazo combinado, com reavaliação.
Não costuma ajudar: dor mecânica pura, que piora com certos movimentos e melhora com outros e não tem trajeto de nervo; dor lombar sem componente de nervo; e o uso isolado e prolongado, sem fisioterapia e sem reavaliação, em que o remédio vira o tratamento inteiro.
Segurança: o que não fazer
- Não dirigir nem operar máquinas nos primeiros dias de adaptação, enquanto houver sonolência ou tontura
- Não associar com álcool: a combinação aumenta a sonolência e a tontura
- Não aumentar, reduzir nem parar por conta própria: a suspensão abrupta sem orientação médica pode causar piora da dor, insônia e sintomas de retirada; a retirada é gradual
- Informar todos os outros remédios em uso, inclusive os de uso contínuo e os que causam sono
- Com prescrição e acompanhamento médico, sempre: o esquema é individual
Por que o remédio não substitui a reabilitação e quando reavaliar
Pregabalina, gabapentina e duloxetina estão entre os remédios de primeira escolha recomendados pelas diretrizes internacionais para a dor que vem do nervo (Soliman 2025; Finnerup 2015). A duloxetina também é uma opção na dor lombar crônica em pacientes selecionados (Qaseem 2017; Ferreira 2021).
Eles funcionam melhor quando a dor tem características claras de nervo sensibilizado (choque, queimação, trajeto definido) e quando fazem parte de um plano junto com a reabilitação. O remédio diminui a sensibilidade do nervo; a reabilitação trata a mecânica da coluna e devolve a confiança para o movimento. Um ajuda o outro.
A resposta varia de pessoa para pessoa. Por isso a reavaliação é marcada depois de algumas semanas: se ajudou, segue pelo prazo combinado; se não houve ganho, o esquema é revisto.
Se a dor na perna ou no braço não melhora no prazo combinado, o passo não é aumentar a dose indefinidamente nem trocar de remédio sem critério. É reavaliar: a história (a dor mudou de padrão?), o exame neurológico (há perda de força ou de sensibilidade?) e a imagem (a compressão explica os sintomas?). Com esse quadro em mãos, entram os próximos degraus: a infiltração (bloqueio) guiada por imagem junto à raiz, que reduz a inflamação e permite avançar na reabilitação, e, quando há critério, as técnicas menos invasivas ou a descompressão cirúrgica. A medicação, nesse caminho, continua como apoio, não como solução.
Quando procurar avaliação
Se você está em uso de um desses remédios e a dor não melhorou no prazo combinado, se surgiu fraqueza, formigamento que avança ou efeitos colaterais que atrapalham, ou se recebeu a receita e quer entender o plano por trás dela, a consulta com um especialista em coluna em São Paulo reavalia a história, o exame e a imagem e define se o remédio continua, muda ou dá lugar ao próximo degrau. Perda de força que progride, dormência na região íntima ou alteração para urinar pedem atendimento no mesmo dia.
Perguntas frequentes
- Por que o médico receitou um remédio de epilepsia ou depressão para a minha coluna?
- Porque a sua dor tem características de dor do nervo (choque, queimação, trajeto definido), e esses remédios agem na condução do nervo e na forma como a medula processa a dor, coisa que o analgésico comum não faz. O nome da classe diz de onde o remédio veio, não para que está sendo usado. A dose e o esquema seguem a prescrição médica.
- Quanto tempo a pregabalina ou a duloxetina demoram para fazer efeito na dor ciática?
- Dias a semanas, porque o efeito depende da adaptação do nervo e do ajuste gradual da dose. O tempo varia de pessoa para pessoa, e por isso a reavaliação é marcada para algumas semanas depois do início: é quando se decide se o remédio ajudou ou deve ser revisto.
- É normal sentir muito sono ou tontura nos primeiros dias?
- É comum, sobretudo com pregabalina e gabapentina, e costuma diminuir com a adaptação. Por isso a prescrição começa à noite e de forma gradual. Sono ou tontura que persistem, ou que atrapalham o dia, devem ser comunicados ao médico; não dirija nem opere máquinas enquanto durarem.
- A pregabalina cura a hérnia de disco ou só disfarça a dor?
- Nenhum dos dois. Ela não age na hérnia; reduz a sensibilização do nervo comprimido, tornando a dor mais suportável enquanto a inflamação cede e a hérnia tende a regredir com o tempo, e enquanto a reabilitação avança. Ela faz parte do tratamento, junto com a reabilitação.
- Estou tomando pregabalina ou gabapentina e a dor na perna não melhora. O que fazer?
- Primeiro, reavaliar com o médico: a história (a dor mudou?), o exame neurológico (há perda de força ou de sensibilidade?) e a imagem (a compressão explica os sintomas?). Depois, com esse quadro, considerar os próximos degraus: infiltração guiada por imagem junto à raiz e, quando há critério, técnicas menos invasivas ou cirurgia. Não aumente a dose por conta própria.
- Posso parar de tomar quando a dor melhorar?
- Nunca por conta própria. A retirada é gradual e com orientação médica: a suspensão abrupta pode causar piora da dor, insônia e sintomas de retirada. Quando a dor melhora, o médico define o momento e o ritmo da redução.
- Esses remédios engordam?
- Ganho de peso e inchaço podem acontecer, sobretudo com pregabalina e gabapentina, e variam de pessoa para pessoa. Vale comunicar ao médico se notar; o esquema pode ser ajustado, e o tratamento costuma ser por prazo definido, não indefinido.
- Posso dirigir ou beber álcool enquanto tomo?
- Nos primeiros dias de adaptação, não dirija nem opere máquinas enquanto houver sonolência ou tontura; depois, depende de como você reage, e isso é combinado com o médico. Álcool deve ser evitado: a combinação aumenta a sonolência e a tontura.
Referências
- Soliman N et al. Pharmacotherapy and non-invasive neuromodulation for neuropathic pain: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2025;24(5):413-428. PMID 40252663.
- Finnerup NB et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173. PMID 25575710.
- Qaseem A et al. Noninvasive treatments for acute, subacute, and chronic low back pain: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017;166(7):514-530. PMID 28192789.
- Ferreira GE et al. Efficacy and safety of antidepressants for the treatment of back pain and osteoarthritis: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2021;372:m4825. PMID 33472813.
