Doença da coluna
Artrose facetária (artrose da coluna)
As facetas são as pequenas articulações da parte posterior da coluna. Quando degeneram, causam dor localizada que piora ao arquear as costas ou girar o tronco. No laudo, o desgaste aparece quase sempre em quem já passou da meia-idade, com ou sem dor. Este guia explica o que é, as causas, como se confirma que a faceta é a fonte da dor, o que o laudo e o CID significam e o tratamento, do fortalecimento à rizotomia.
Revisão técnica: Dr. Marcelo Acosta (CRM-SP 164159 / RQE 80588). Atualizado em 29 de outubro de 2026.
O que é
As articulações facetárias (zigapofisárias) ficam na parte posterior de cada nível vertebral, uma de cada lado, e guiam o movimento: permitem flexão e limitam extensão e rotação. São articulações como as do joelho, com cartilagem, cápsula e líquido. Com o desgaste, a cartilagem se gasta, a cápsula espessa, a articulação aumenta de volume e forma osteófitos; pode doer e, na coluna lombar, contribuir para a estenose do canal e para a espondilolistese degenerativa.
"Artrose da coluna", "espondiloartrose" e "espondilose" são nomes do laudo para esse desgaste, muitas vezes somado ao do disco. "Bico de papagaio" é o nome popular do osteófito, a saliência óssea que cresce na borda das vértebras e das facetas. Ter esses termos no laudo é esperado com a idade; a pergunta é se eles explicam a sua dor.
Causas
A principal é o envelhecimento das estruturas que trabalham em conjunto: quando o disco perde altura, as facetas passam a receber mais carga e desgastam mais rápido. Contribuem a hiperlordose e as posturas em extensão prolongada, esforços repetidos em extensão e rotação (alguns esportes e trabalhos), sobrepeso, fraqueza da musculatura do tronco, traumas antigos e a predisposição individual. Na cervical, somam-se as horas com o pescoço estendido ou girado. Doenças inflamatórias (espondiloartrites) também atingem as facetas e entram no diagnóstico diferencial quando a dor é inflamatória: pior de madrugada, com rigidez matinal longa.
Sintomas
Dor localizada na lombar ou no pescoço, de um lado ou dos dois, próxima da linha média, pior ao estender o tronco, girar ou ficar em pé parado, melhor ao sentar ou flexionar; rigidez curta pela manhã. Pode referir para o glúteo e a parte de trás da coxa (lombar) ou para o ombro e a região entre as escápulas (cervical), sem passar do joelho ou do cotovelo e sem formigamento: é dor referida, não radicular. Na cervical, a artrose das facetas altas é causa frequente de dor de cabeça que começa na nuca.
Quando aparecem formigamento, dor que desce até o pé ou a mão, ou dificuldade para caminhar que melhora ao sentar, o problema já não é só a faceta: há compressão de raiz ou estenose associada. Fraqueza que progride, dormência na região íntima ou alteração para urinar mudam a urgência.
Diagnóstico
A imagem mostra artrose em quase todo adulto e não confirma que a faceta é a fonte da dor. O padrão da dor (extensão e rotação pioram, flexão alivia), a dor à pressão sobre a articulação e a ausência de sinais radiculares no exame neurológico levantam a suspeita. Radiografias mostram o desgaste e o alinhamento; a ressonância mostra hipertrofia, derrame e edema das facetas e afasta outras causas; a tomografia detalha o osso.
O teste de referência é o bloqueio do ramo medial: anestesia-se o pequeno nervo que inerva a articulação, com guia de imagem; alívio significativo e reprodutível confirma o diagnóstico. Separar a artrose que aparece no laudo da artrose que dói é o trabalho da consulta. O quadro abaixo traduz os termos e os códigos CID, com a conduta para cada um.
Exames de imagem e CID
Como aparece no laudo
O laudo descreve a imagem; o que define a conduta é a correspondência entre o achado, os sintomas e o exame neurológico. Para cada termo, o que ele significa e o que fazer com ele.
- Espondiloartrose ou espondilose
- Termo guarda-chuva do laudo para o desgaste da coluna como um todo: discos mais baixos, osteófitos e artrose das facetas. Aparece na maioria dos laudos depois da meia-idade, com ou sem dor.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Artrose facetária
- Desgaste das pequenas articulações da parte de trás da coluna (facetas), que aumentam de volume e às vezes acumulam líquido.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor localizada na lombar ou no pescoço que piora ao estender o tronco, girar ou ficar em pé parado e melhora ao sentar
- Hipertrofia facetária
- A articulação desgastada aumentou de volume. Sozinha é achado do desgaste; quando avança para dentro do canal ou do forame, participa da estenose.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada ou dificuldade para caminhar que melhora ao sentar (estenose associada)
- Derrame articular ou edema das facetas
- Líquido dentro da articulação ou edema no osso ao redor. Pode indicar inflamação ativa da faceta e, em alguns casos, ajuda a prever a resposta ao bloqueio. Derrame acentuado em L4-L5 pode sugerir instabilidade; nesse caso, a radiografia dinâmica ajuda.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor localizada do mesmo lado, pior em extensão
- Osteófito ("bico de papagaio")
- Crescimento ósseo nas bordas das vértebras ou das articulações, ligado ao desgaste. É muito comum e, em geral, sem importância — exceto quando estreita o canal ou o forame.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Hipertrofia do ligamento amarelo
- Espessamento do ligamento que reveste a parte de trás do canal. Contribui para o estreitamento do canal, sobretudo na região lombar.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Estenose foraminal
- Estreitamento do forame, o orifício lateral por onde a raiz nervosa sai da coluna. Pode comprimir a raiz e causar dor irradiada.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada no território da raiz desse forame, sobretudo em pé ou ao caminhar
- Cisto sinovial facetário
- Pequeno cisto que nasce de uma faceta desgastada. Quando cresce para dentro do canal ou do forame, pode comprimir uma raiz nervosa.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada ou formigamento do lado do cisto
- Artrose com estenose do canal ou espondilolistese degenerativa
- O desgaste das facetas deixou a vértebra escorregar ou fechou o canal. Passa a ser um problema de compressão nervosa, não só de dor articular. A imagem sozinha não é urgente.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dificuldade progressiva para caminhar, dor irradiada ou fraqueza; vira urgência (atendimento no mesmo dia) se vier com dormência na região íntima, alteração para urinar ou evacuar, ou fraqueza que piora
Códigos CID-10 que costumam acompanhar guias e relatórios
- M47.8 · Outras espondiloses (artrose facetária lombar ou cervical)
- M47.9 · Espondilose não especificada
- M47.2 · Espondilose com radiculopatia
- M48.0 · Estenose da coluna vertebral
- M43.1 · Espondilolistese (degenerativa, por artrose das facetas)
- M54.5 · Dor lombar baixa (lombalgia)
- M54.2 · Cervicalgia
- M71.3 · Cisto sinovial (cisto facetário)
O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.
Tratamento: do conservador à rizotomia
Primeiro, o tratamento conservador: fortalecimento do tronco e dos glúteos, mobilidade, ajuste das atividades em extensão prolongada, controle de peso e analgesia por tempo definido. É o que mais muda o curso da dor facetária, e muitas pessoas convivem bem só com isso.
Quando a dor persiste, os bloqueios guiados por imagem entram com dupla função: confirmam que a faceta é a fonte (bloqueio-teste do ramo medial) e aliviam. Se o teste é positivo e a dor recorre, a rizotomia por radiofrequência (denervação facetária) interrompe a condução do ramo medial em procedimento ambulatorial, sem cirurgia aberta; em pacientes selecionados pelo bloqueio-teste, o alívio costuma durar meses e o procedimento pode ser repetido se a dor voltar. A infiltração intra-articular é alternativa em fases inflamatórias.
Em geral, a fusão não é tratamento para dor facetária isolada. A cirurgia entra quando a artrose produziu estenose do canal com claudicação ou espondilolistese instável: aí o tratamento é o dessas condições, descompressão e, se houver instabilidade, artrodese.
Quando procurar avaliação
Dor lombar ou cervical que piora ao arquear as costas ou girar, que persiste apesar de fortalecimento e analgesia, ou um laudo com artrose que você não sabe o que significa: a consulta com um médico especialista em coluna separa o desgaste esperado do que de fato dói e define se o caminho é conservador, bloqueio, rizotomia ou outro. Dor que desce para a perna ou o braço com formigamento, dificuldade progressiva para caminhar, fraqueza que progride ou alteração urinária pedem avaliação sem demora, e as duas últimas no mesmo dia.
Perguntas frequentes
A rizotomia é definitiva?
Não. O nervo pode regenerar-se com o tempo e a dor voltar; em pacientes selecionados pelo bloqueio-teste, o alívio costuma durar meses e o procedimento pode ser repetido se a dor voltar.
Artrose na coluna tem cura?
O desgaste não se reverte, mas a dor costuma ser controlada com fortalecimento, ajustes de atividade e, quando indicado, procedimentos como a rizotomia. O objetivo é função com menos dor.
"Bico de papagaio" dói?
Nem sempre. O osteófito é muito comum e, sozinho, não explica dor. Passa a importar quando estreita o canal ou o forame, ou quando faz parte de uma articulação inflamada.
Artrose facetária e espondiloartrose são a mesma coisa?
Quase. Espondiloartrose (ou espondilose) é o nome do desgaste da coluna como um todo, discos e facetas; artrose facetária é o desgaste específico das facetas. No laudo, os dois costumam aparecer juntos. O que importa não é o nome, e sim se a faceta é a fonte da sua dor.
Artrose facetária causa dor na perna?
Pode causar dor referida para o glúteo e a coxa, que não passa do joelho e vem sem formigamento. Dor que desce até o pé, com formigamento ou fraqueza, indica compressão de raiz, por estenose do forame ou cisto facetário, e muda a investigação.
Posso fazer exercício com artrose facetária?
Deve. Fortalecimento do tronco e dos glúteos, mobilidade e condicionamento são a base do tratamento. O ajuste é evitar, nas crises, os movimentos em extensão e rotação com carga; não é parar de se exercitar.
Artrose cervical causa dor de cabeça?
Pode. A artrose das facetas altas do pescoço é causa frequente de dor que começa na nuca e sobe para a cabeça, pior ao girar ou estender o pescoço. O bloqueio-teste dessas facetas ajuda a confirmar, e o tratamento segue a mesma lógica da lombar.
Qual o CID da artrose da coluna?
M47.8 (outras espondiloses) é o mais usado para a artrose facetária lombar ou cervical; M47.9 quando o laudo diz apenas espondilose; M47.2 se há compressão de raiz associada. Com estenose, M48.0; com listese degenerativa, M43.1. O código identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.
