Tratamento · degrau 5
Artrodese cervical (ACDF)
ACDF (discectomia cervical anterior com fusão) é a cirurgia mais consagrada para a hérnia cervical e para a compressão da medula vinda da frente: por uma incisão discreta no pescoço, o disco doente é removido, a raiz ou a medula é descomprimida e o espaço é preenchido com um espaçador que se funde às vértebras. Este guia explica para quais problemas ela serve, como é feita, quando a prótese de disco ou a foraminotomia são alternativas, o preparo, os riscos e a recuperação.
Revisão técnica: Dr. Marcelo Acosta (CRM-SP 164159 / RQE 80588). Atualizado em 29 de outubro de 2026.
O que é e como funciona
Por uma incisão discreta numa prega do pescoço, entre a traqueia e os vasos do pescoço, chega-se à face anterior da coluna cervical; o acesso passa entre os músculos do pescoço, afastando-os, sem seccioná-los. O disco doente e os osteófitos são removidos sob microscópio, a raiz e a medula são descomprimidas, e um espaçador (cage) com enxerto, em geral fixado com placa ou parafusos próprios, preenche o espaço; ao longo dos meses, as duas vértebras se fundem em um bloco. Um nível fundido tira pouco da amplitude total do pescoço.
Quando a compressão vem de vários níveis ou de trás da vértebra (ossificação do ligamento, estenose extensa), a técnica muda: corpectomia (retirada do corpo da vértebra pela frente) ou descompressão por trás (laminoplastia, laminectomia com fixação). A escolha é parte do planejamento.
Para quais problemas
- Hérnia de disco cervical com déficit motor ou dor radicular refratária ao tratamento conservador e à infiltração
- Mielopatia cervical por compressão anterior, em um ou mais níveis, sobretudo progressiva
- Estenose foraminal por uncoartrose com radiculopatia refratária, quando a compressão óssea pede a via anterior
- Instabilidade ou deformidade cervical, inclusive após trauma
- Revisão de artrodese anterior que não consolidou (pseudoartrose)
Sintomas e quadros que levam à indicação
Dor que desce do pescoço para o braço com formigamento nos dedos e fraqueza para determinados movimentos, que não cedeu a semanas de tratamento bem conduzido nem à infiltração; perda de força que progride no braço ou na mão; e os sinais de medula, que mudam a urgência mesmo com pouca dor: perda de destreza (abotoar, escrever, digitar), desequilíbrio, choque pela coluna ao flexionar o pescoço, urgência urinária. Dor cervical isolada, sem sinais de raiz ou de medula, não é indicação de ACDF.
Diagnóstico e planejamento
A consulta relaciona os sintomas (de raiz ou de medula) com o exame neurológico e a ressonância, define quantos níveis estão envolvidos e de onde vem a compressão (disco, osteófito, ligamento), avalia alinhamento e instabilidade nas radiografias dinâmicas e, na dúvida sobre o osso, pede tomografia. É esse conjunto que decide entre ACDF, prótese de disco, foraminotomia posterior, corpectomia ou abordagem posterior. O quadro abaixo traduz os achados de laudo que costumam levar à indicação, os que não são indicação e os que mudam a técnica, com os códigos CID.
Exames de imagem e CID
Como aparece no laudo
O laudo descreve a imagem; o que define a conduta é a correspondência entre o achado, os sintomas e o exame neurológico. Para cada termo, o que ele significa e o que fazer com ele.
- Extrusão discal
- Tipo de hérnia em que o material deslocado tem a ponta mais larga do que a base, ou se estende acima ou abaixo do disco. Costuma ter mais contato com a raiz nervosa.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor radicular refratária ou déficit motor: a retirada do disco pela frente (ACDF ou artroplastia) ou a foraminotomia posterior resolvem a compressão
- Protrusão discal
- Tipo de hérnia em que o material do disco sai de forma localizada, com a base mais larga do que a ponta. Pode ou não tocar uma raiz nervosa.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sintomas no território da raiz que ela toca; sem déficit, o tratamento começa conservador
- Estenose foraminal
- Estreitamento do forame, o orifício lateral por onde a raiz nervosa sai da coluna. Pode comprimir a raiz e causar dor irradiada.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor radicular refratária no território dessa raiz: foraminotomia posterior ou ACDF, conforme a anatomia
- Uncoartrose (osteófitos uncovertebrais)
- Osteófitos das pequenas articulações laterais das vértebras cervicais, que estreitam o forame por dentro. Comuns depois dos 50 anos; quando a compressão é óssea e não só discal, a via anterior permite retirá-los.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: dor irradiada refratária no território da raiz desse forame
- Hérnia central com impressão ou compressão da medula
- O disco avança para o meio do canal e toca ou deforma a medula. O que pesa é se há alteração de sinal na medula e sinais de mielopatia no exame; a imagem sozinha não é urgente.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sempre, e logo; vira urgência (atendimento no mesmo dia) com perda de destreza, desequilíbrio, fraqueza que piora ou alteração para urinar
- Alteração de sinal na medula
- Área da medula que aparece diferente na ressonância (em geral, mais clara em T2), indicando sofrimento do tecido nervoso. Tem peso importante na decisão de tratamento.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: avaliar logo, mesmo com sintomas leves: indica sofrimento da medula e pesa para a descompressão; com piora rápida, não espera
- Mielomalácia
- Área de dano já estabelecido na medula, que aparece na ressonância como afilamento e alteração de sinal persistente. Indica compressão de longa duração e pesa na expectativa de recuperação.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sinais de mielopatia; indica compressão de longa duração e pesa na expectativa de recuperação
- Ossificação do ligamento longitudinal posterior (OPLL)
- O ligamento que corre atrás dos corpos vertebrais vira osso e ocupa espaço dentro do canal cervical. É uma causa de compressão da medula que costuma envolver vários níveis.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: sinais de mielopatia ou estreitamento em vários níveis: muda a técnica (corpectomia ou abordagem posterior em vez de ACDF simples)
- Instabilidade segmentar
- Movimento anormal entre duas vértebras, visto nas radiografias em pé com flexão e extensão. É o achado que mais pesa na indicação de artrodese; a ressonância deitada não o mostra.
- Merece avaliação com especialista quando acompanhado de: movimento anormal nas radiografias dinâmicas: pesa para a artrodese e contra a prótese de disco
- Retificação da lordose cervical
- A curva natural do pescoço aparece mais reta. Na maioria das vezes reflete a posição no exame ou a contratura da dor; não é indicação de cirurgia, mas o alinhamento é considerado no planejamento.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
- Osteófito ("bico de papagaio")
- Crescimento ósseo nas bordas das vértebras ou das articulações, ligado ao desgaste. É muito comum e, em geral, sem importância — exceto quando estreita o canal ou o forame.
- Achado comum da idade, sem valor isolado
Códigos CID-10 que costumam acompanhar guias e relatórios
- M50.1 · Transtorno do disco cervical com radiculopatia
- M50.0 · Transtorno do disco cervical com mielopatia
- M47.2 · Espondilose com radiculopatia (uncoartrose com compressão de raiz)
- M47.1 · Espondilose com mielopatia
- G99.2 · Mielopatia em doenças classificadas em outra parte (complementar de M50.0 ou M47.1)
- M48.0 · Estenose da coluna vertebral
- M53.2 · Instabilidade da coluna vertebral
- M50.3 · Outra degeneração de disco cervical
- M96.0 · Pseudoartrose após fusão ou artrodese
- Z98.1 · Estado de artrodese (fusão) da coluna
O CID identifica a condição para registro e operadora; não define o tratamento.
Técnicas e alternativas
O que muda para o paciente em cada opção:
- ACDF (discectomia anterior com fusão): a técnica mais consagrada; serve a um espectro amplo, inclusive mielopatia, uncoartrose e mais de um nível; o nível operado deixa de se mover, e os vizinhos podem se desgastar ao longo dos anos
- Artroplastia (prótese de disco cervical): mesma via anterior, mas o disco é substituído por uma prótese que preserva o movimento; para pacientes selecionados, com hérnia em um ou dois níveis, sem artrose facetária avançada, sem instabilidade e com alinhamento preservado
- Foraminotomia posterior, inclusive endoscópica: por trás, abre-se o forame por onde a raiz sai, sem retirar o disco nem fundir; para hérnias foraminais laterais com dor radicular, sem mielopatia
- Corpectomia e abordagem posterior (laminoplastia, laminectomia com fixação): para compressão extensa da medula, ossificação do ligamento ou vários níveis
- Mais de um nível: a ACDF pode ser feita em dois ou três níveis; acima disso, ou com deformidade, o planejamento muda e pode combinar vias
Preparo
- Avaliação clínica e anestésica, com exames conforme a idade e as doenças associadas
- Anticoagulantes e antiagregantes: informar; a suspensão ou o ajuste é combinado com o médico que os prescreveu
- Parar de fumar e controlar o diabetes: o fumo e a glicemia alta aumentam o risco de a fusão não consolidar e de infecção
- Informar problemas prévios de voz ou de deglutição e cirurgias anteriores no pescoço (tireoide, carótida), que influenciam o lado do acesso
- Levar os exames de imagem, a lista de medicamentos e, se houver, o relatório de cirurgia prévia
Riscos e complicações
Dificuldade para engolir e rouquidão são comuns nos primeiros dias e costumam ser passageiras; se persistirem, há avaliação específica, porque o nervo da voz (laríngeo recorrente) passa perto do acesso. Outros riscos: infecção, sangramento (um hematoma no pescoço que cause dificuldade para respirar é raro e é tratado de imediato), lesão de raiz ou, raramente, da medula, falha de consolidação (pseudoartrose), soltura ou mau posicionamento do implante, e desgaste dos níveis vizinhos ao longo dos anos. Na prótese de disco, há ainda o risco de ossificação ao redor do implante, que reduz o movimento esperado. Todos são discutidos antes da decisão, com os riscos gerais de anestesia.
Recuperação
Internação em geral curta; caminhada no mesmo dia. Dieta pastosa por alguns dias se houver dificuldade para engolir; colar cervical por tempo curto só quando indicado. A dor no braço costuma melhorar nos primeiros dias; o formigamento e, na mielopatia, a destreza e o equilíbrio podem levar mais tempo e recuperar só em parte. Retorno gradual a atividades leves e ao trabalho de escritório ao longo das primeiras semanas; dirigir quando a rotação do pescoço permite; esforço e impacto esperam a consolidação, que leva meses e é acompanhada com radiografias. Fisioterapia orientada para a musculatura cervical e a postura faz parte.
Onde ela entra na escada de tratamento
A ACDF é o degrau cirúrgico da coluna cervical, depois do tratamento conservador e da infiltração. Nem todo caso passa por todos os degraus: déficit motor que progride e mielopatia moderada a grave, ou que piora, pulam o conservador, porque esperar custa função; e a maioria das radiculopatias cervicais nunca chega à cirurgia. Os degraus estão em Tratamentos da coluna.
Quando procurar avaliação
Dor do pescoço para o braço que não cedeu a semanas de tratamento nem à infiltração, qualquer perda de força no braço ou na mão, sinais de medula (destreza, equilíbrio, choque ao flexionar o pescoço), ou uma indicação de ACDF em que você quer entender a técnica e as alternativas: a consulta com um especialista em coluna em São Paulo correlaciona os sintomas com o exame e a imagem, define quantos níveis estão envolvidos e qual técnica faz sentido para a sua anatomia e idade. Em indicação cirúrgica, uma segunda opinião é prática reconhecida. Perda de destreza, desequilíbrio, fraqueza que piora ou alteração urinária pedem atendimento no mesmo dia.
Perguntas frequentes
Vou perder movimento do pescoço?
Um nível fundido tira pouco da amplitude total; a maioria não nota diferença funcional. Em pacientes jovens com um nível, a artroplastia pode ser discutida.
A voz e a deglutição mudam depois da ACDF?
Rouquidão e dificuldade leve para engolir são comuns nos primeiros dias e costumam ser passageiras. Se persistirem, devem ser comunicadas à equipe.
Prótese de disco ou artrodese?
A prótese preserva movimento e é uma opção para pacientes selecionados, sem artrose facetária avançada nem instabilidade. A artrodese é indicada em mais situações. A escolha depende da anatomia, do número de níveis e da idade.
ACDF é uma cirurgia grande?
É uma cirurgia de porte médio, feita por uma incisão discreta no pescoço, passando entre os músculos sem seccioná-los, com internação em geral curta e caminhada no mesmo dia. O cuidado está na proximidade de estruturas importantes (traqueia, esôfago, vasos, nervo da voz e medula), o que exige planejamento e técnica, não uma recuperação longa.
Preciso usar colar depois da ACDF?
Nem sempre. Com placa ou espaçador fixado, muitas vezes o colar é dispensado ou usado por tempo curto, só para conforto. Quando indicado, a retirada é progressiva, combinada com a fisioterapia.
A fusão pode não colar?
Pode, e chama-se pseudoartrose. É menos frequente em um nível e mais frequente em vários níveis, em fumantes e com diabetes descontrolado. Parte das pseudoartroses não dá sintoma; quando dói ou solta o implante, a revisão pode ser necessária. O acompanhamento com radiografias confirma a consolidação ao longo dos meses.
Dá para operar mais de um nível?
Sim. A ACDF é feita com frequência em dois ou três níveis contíguos. Com mais níveis, deformidade ou compressão extensa da medula, o planejamento muda e pode combinar corpectomia ou abordagem posterior.
Quanto tempo leva a recuperação da ACDF?
Internação curta, caminhada no mesmo dia e atividades leves ao longo das primeiras semanas; a consolidação da fusão leva meses, e esforço e impacto esperam por ela. A dor no braço costuma melhorar nos primeiros dias; o formigamento e os sinais de medula podem levar mais tempo. O ritmo depende do número de níveis e das condições de saúde de cada pessoa.
Qual o CID da ACDF?
A ACDF é um procedimento; o CID que aparece em guias e relatórios é o da condição tratada: disco cervical com radiculopatia (M50.1) ou com mielopatia (M50.0), espondilose com radiculopatia (M47.2) ou com mielopatia (M47.1), instabilidade (M53.2). Depois da cirurgia, o estado de artrodese pode ser registrado como Z98.1 e a pseudoartrose como M96.0. O código serve ao registro e à operadora; não define a indicação.
