Decisão cirúrgica · 7 min de leitura
Artrodese da coluna: quando é indicada e o que ela resolve

"Colocar parafuso na coluna" assusta, e vale explicar o que de fato se faz. A artrodese estabiliza um segmento da coluna que se move de forma anormal ou perdeu o alinhamento e permite descomprimir os nervos com segurança. É uma cirurgia com indicações claras; quando a história, o exame e a imagem apontam para o mesmo problema, ela tem um objetivo definido. Este texto explica o que ela resolve, quando é indicada, como a indicação se confirma e o que esperar.
Conteúdo revisado por Dr. Marcelo Augusto Acosta Goiri — Neurocirurgião — CRM-SP 164159 — RQE 80588. Atualizado em 29 de outubro de 2026.
O que a artrodese faz
Funde duas ou mais vértebras em um bloco único, com enxerto ósseo e, em geral, parafusos, hastes ou um espaçador no lugar do disco. O segmento deixa de se mover. Isso resolve dois tipos de problema: a dor e o risco neurológico que vêm de um movimento anormal (instabilidade, espondilolistese que escorrega) ou de um alinhamento errado (deformidade), e a necessidade de descomprimir os nervos de forma ampla sem deixar a vértebra sem apoio. Em geral, quando a fusão envolve um ou poucos segmentos, a maior parte do movimento da coluna é preservada; o objetivo é tirar a dor que vem do movimento anormal, não a mobilidade.
Quando a artrodese é indicada
As situações em que existe um alvo mecânico para a fusão:
- Espondilolistese instável ou progressiva com sintomas, sobretudo quando é preciso descomprimir e a descompressão sozinha aumentaria o deslizamento
- Instabilidade segmentar comprovada em radiografias dinâmicas (movimento anormal entre flexão e extensão)
- Deformidade do adulto (escoliose degenerativa, perda de lordose) com dor e desequilíbrio do tronco
- Fraturas instáveis, tumores e infecções que comprometem a sustentação da vértebra
- Estenose com espondilolistese degenerativa, em que a fusão associada à descompressão reduz o risco de recidiva em pacientes selecionados
- Discopatia sintomática de um nível, refratária por longo período, com dor discogênica bem caracterizada: indicação real, porém restrita e discutida caso a caso
Critérios de uma boa indicação
Parte da boa indicação é reconhecer onde a fusão não tem alvo: dor lombar inespecífica, discopatia degenerativa "de laudo" sem instabilidade e sem dor discogênica caracterizada, artrose facetária isolada (tratada por infiltração e rizotomia), hérnia de disco simples (tratada por endoscopia ou microdiscectomia, sem fusão) e ressonância alterada em paciente com dor mecânica sem alvo definido. Nesses cenários, os estudos que compararam fusão com reabilitação intensiva mostram pouca ou nenhuma vantagem para a cirurgia, e por isso o caminho é outro. A artrodese bem indicada é a que responde a um problema mecânico identificado.
Como se confirma a indicação
Radiografias em pé com flexão e extensão, porque a ressonância deitada não mostra instabilidade. Radiografia panorâmica de coluna inteira quando há deformidade, para medir o alinhamento. Correlação entre o nível que se pretende fundir e a origem da dor, às vezes com bloqueio-teste antes. E tratamento conservador adequado, com prazo, que não deu conta. Quando esses elementos convergem, a indicação está sustentada e a conversa passa a ser sobre a técnica e o que esperar.
Como é a cirurgia: técnicas atuais
Fixação percutânea com parafusos por incisões mínimas; espaçadores intersomáticos por via posterior (TLIF), anterior (ALIF) ou lateral (OLIF/LLIF); navegação por imagem. Essas técnicas reduzem sangramento, dor e tempo de internação; a escolha da via depende do nível, da deformidade e da anatomia de cada paciente, e está detalhada em artrodese lombar.
Monitorização dos nervos: nessas cirurgias usa-se a monitorização neurofisiológica intraoperatória, um acompanhamento elétrico em tempo real da medula e das raízes nervosas durante todo o procedimento. Ela avisa a equipe de qualquer sinal de sofrimento de um nervo e também ajuda a testar se os parafusos estão em posição segura em relação aos nervos. Como funciona e o que esperar dela estão em monitorização dos nervos durante a cirurgia.
Riscos e o que esperar
Como toda cirurgia, a artrodese tem riscos, que são conversados antes: a fusão pode não consolidar (pseudoartrose), os níveis vizinhos podem se desgastar ao longo dos anos, e há os riscos gerais de infecção, sangramento e lesão neural, incomuns, mas reais. A internação é curta, com caminhada desde o início; o retorno às atividades leves acontece ao longo das primeiras semanas e a consolidação óssea, ao longo de meses, acompanhada com radiografias. Um ou dois níveis fundidos representam pequena parcela do movimento total da coluna, e a maioria não percebe limitação relevante no dia a dia. O preparo, o dia da internação e a recuperação em casa estão em vou operar a coluna: como me preparar.
Perguntas que valem a pena conversar com o seu cirurgião
Entender o plano faz parte da decisão. Estas perguntas ajudam a conversa:
- Qual é a instabilidade ou deformidade que justifica a fusão, e como ela foi vista (radiografia dinâmica, panorâmica)?
- O que se espera que a cirurgia resolva no meu caso, e o que ela não resolve?
- Quantos níveis, por qual via, e por quê?
- O que acontece se eu não operar agora?
- Como será a recuperação e quando volto às minhas atividades?
Em resumo
Quando a história, o exame físico e a imagem apontam para o mesmo problema, como instabilidade, deformidade ou compressão que precisa de estabilização, a artrodese bem indicada tem como objetivo proteger os nervos, estabilizar a coluna e melhorar a qualidade de vida. A decisão é tomada em conjunto, depois de explicar o que se espera da cirurgia no seu caso. Uma segunda opinião é prática reconhecida e faz parte desse processo quando o paciente quer ouvi-la.
Perguntas frequentes
- Vou ficar "travado"?
- Um ou dois níveis fundidos tiram pouco da mobilidade global. Flexão, rotação e atividades cotidianas ficam preservadas na maioria.
- Os parafusos precisam ser retirados?
- Em geral, não. Ficam permanentemente e, após a consolidação óssea, deixam de ter função mecânica.
- Os nervos são monitorados durante a cirurgia?
- Sim. Nessas cirurgias usamos a monitorização neurofisiológica intraoperatória, que acompanha em tempo real a função da medula e dos nervos e avisa a equipe de alterações durante o procedimento. Quando há parafusos, ela também ajuda a testar se estão em posição segura. É uma camada a mais de segurança; nenhuma cirurgia tem risco zero.
- Posso pedir uma segunda opinião antes de decidir?
- Sim. É prática reconhecida em qualquer indicação de fusão e faz parte de decidir com segurança; um bom cirurgião a estimula.
Referências
- Ghogawala Z et al. Laminectomy plus fusion versus laminectomy alone for lumbar spondylolisthesis. N Engl J Med. 2016.
- Fritzell P et al. Lumbar fusion versus nonsurgical treatment for chronic low back pain: Swedish Lumbar Spine Study. Spine. 2001.
- Brox JI et al. Randomized clinical trial of lumbar instrumented fusion and cognitive intervention and exercises in patients with chronic low back pain. Spine. 2003.
